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www.soononmoon.org/cineaum/FHC.mpg
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Cineastas baianos se mobilizam contra censura
Vítor Rocha,
do A Tarde On Line
A retirada de última hora do vídeo “O Fim do Homem Cordial” da Mostra de Jovens Realizadores baianos, realizada no último fim de semana, caiu como uma bomba no meio artístico. Os cineastas baianos marcaram um ato público para a próxima segunda-feira (13), às 9 horas, na sede da Diretoria de Artes Visuais e Multimeios (Dimas), nos Barris, para protestar contra “a censura imposta pela Dimas ao cinema da Bahia”, como mostra um manifesto que a classe divulgou através de e.mails.
A decisão partiu de uma assembléia realizada pela Associação Baiana de Cinema e Vídeo (ABCV), na quarta-feira (8), com cerca de 50 participantes presentes. A assembléia deliberou que a Dimas teria que se retratar e exibir o filme no mesmo local onde foi proibido, na sala Alexandre Robatto.
O presidente da ABCV, José Araripe Júnior, reuniu-se na manhã desta sexta feira com o diretor da Fundação Cultural, Armindo Bião, e transmitiu a posição da comunidade de cineastas contra a censura. Segundo Araripe, Bião não atendeu a solicitação de exibir o filme na sala, alegando que a decisão já havia sido tomada e o assunto deveria ser esquecido.
A reportagem do A Tarde On Line tentou entrar em contato com Bião, mas a assessoria de imprensa da Fundação informou que ele só vai conceder entrevista na próxima semana. “O movimento já extrapolou as decisões da ABCV e tomou corpo próprio. Os cineastas marcaram o ato público sem prévia decisão da associação”, disse Araripe.
O vídeo estava inscrito na mostra realizada por um grupo de jovens da Arteponto Produção Cultural e Design, em parceria com a Dimas, unidade da Fundação Cultural, e saiu da lista a dois dias da abertura do evento (dia 3 de junho) por ordem expressa do órgão. “O Fim do Homem Cordial” é uma realização da produtora Cavalo de Cão e foi o vencedor, no ano passado, do festival A Imagem em 5 Minutos, promovido pelo Governo do Estado, e de caráter nacional.
O filme, com pouco mais de quatro minutos, se apropria de imagens do telejornal Bahia Meio-Dia, da TV Bahia, e de seu apresentador, Casemiro Neto, insere cenas ficcionais de um grupo terrorista que seqüestra um político influente, que no filme é chamado de “Cabeça Branca” e “Painho”. O político apanha e é xingado, com cenas inspiradas nos grupos extremistas árabes, que praticam a chantagem através de seqüestros e imagens veiculadas em TVs do mundo inteiro. Mesmo com alusão explícita ao senador baiano Antônio Carlos Magalhães, o filme não cita seu nome. Frases como “A Bahia está órfã” e “Acabou essa onda de coronelismo na Bahia”, também são citadas na fita.
“A Dimas nos disse que o vídeo não poderia ser exibido, sob pena de a mostra não ser realizada na sala Alexandre Robatto. Como fomos avisados em cima da hora, ficamos na dúvida, mas resolvemos manter o restante da programação, já que o público não poderia ser avisado”, relata Cilene Canda, organizadora do evento. Ela não escondeu a decepção com a atitude do órgão governamental, que ao menos apresentou um motivo concreto. “O funcionário (da Dimas) nos comunicou a censura, digamos assim, e disse que estava cumprindo determinação superior. Nós ficamos decepcionados, pois não tínhamos intenção nenhuma de fazer seleção. Era apenas uma mostra, mas a decisão estava acima da gente”, lamenta Cilene.
TRIAGEM – O diretor da Dimas, Jamison Pedra, não classifica a retirada do filme da mostra como censura, mas sim como um processo de triagem. Segundo ele, o órgão público deve filtrar os trabalhos para proteger o público, formado em sua maioria por adolescentes e crianças em fase escolar. “O filme atinge uma pessoa, o senador Antônio Carlos Magalhães, de forma agressiva e violenta. Não acrescenta nada aos jovens, pelo contrário, incita a violência, a agressão e atinge a moral, o que não deve acontecer em relação a qualquer personagem”, acredita Pedra.
Pedra alegou também que a organização da mostra não forneceu a relação de filmes que seriam exibidos antes da liberação da parceria, coisa que foge às normas da Dimas. Ainda segundo Pedra, além de agressivo, o filme não contribui artisticamente para o cinema baiano. “Se abrirmos a porteira, teríamos filmes dizendo que o índio é preguiçoso, o nazismo deve voltar e coisas do tipo”. Sobre o fato de a própria instituição ter premiado o vídeo no Festival de 5 Minutos e depois proibido sua exibição, Pedra diz que o erro foi na premiação. “Foi um grande erro da comissão escolher o vídeo. Mas como as normas do Festival davam soberania aos jurados, a Dimas manteve a decisão”.
Na época, o então diretor do órgão, Sérgio Borges, foi exonerado do cargo pouco depois do Festival. Especula-se entre os cineastas baianos que Borges foi demitido por ter retificado a decisão do júri e premiado um filme que faz alusão negativa ao senador Antônio Carlos Magalhães.
Perguntado sobre o assunto, seu sucessor, Jamison Pedra, disse não conhecer Sérgio Borges e não saber nada sobre o assunto. Sérgio Borges não foi localizado para comentar o assunto e recado foi deixado na secretária eletrônica de sua residência, mas não houve retorno.
A retirada do filme da programação gerou indignação em seus produtores. Diego Lisboa, irmão de Daniel e sócio da Cavalo de Cão, classificou o ato como censura e lembra que desde a premiação no festival baiano eles têm enfrentado problemas para a exibição do curta. Ele confessa que a atitude do órgão governamental não surpreendeu, mas não deixa de gerar indignação. “A gente está sendo morto pelo governo, pois não é a primeira vez que tentamos exibir o filme em um espaço (administrado pelo poder) público e não conseguimos”, informa Diego. Ele lembra que a censura vai amplificar suas vozes para discutir exatamente o tema do filme, o coronelismo na Bahia.
DÚVIDA – O presidente da ABCV, José Araripe Júnior, classificou como horrível a atitude da Dimas e acredita que ela deixou precedentes para que surjam dúvidas em relação à imparcialidade da Fundação Cultural e do Governo do Estado sobre os editais de financiamento para realização de filmes e produtos audiovisuais. “Depois disso, qualquer tipo de censura pode acontecer, até na escolha das propostas nos editais. Se um filme for mostrar a prostituição infantil, por exemplo, pode não ser escolhido para ser financiado sob alegação de sujar a imagem da Bahia no resto do país e coisas do tipo”, analisa Araripe.
Na avaliação do crítico de cinema e professor da Faculdade de Comunicação, André Setaro, o filme ganha uma segunda importância, além da linguagem “suja”, suscita a discussão na sociedade sobre o papel do Estado no incentivo da cultura. “Além da importância cinematográfica, o filme serviu como um estopim para pôr em crise os editais e as escolhas de projetos para incentivo estatal”.
O diretor de jornalismo da TV Bahia, Carlos Libório, disse que Casemiro Neto não esboçou nenhum tipo de reação, apesar de não ter surgido nenhum pedido de uso das imagens. “Não cogitamos nenhuma atitude judicial contra o filme”. O senador Antônio Carlos Magalhães foi procurado durante toda a tarde desta sexta-feira, mas não foi encontrado para comentar o assunto.
